sexta-feira

usar de psicologia

Já ouviram a expressão, "usar de psicologia", é certo. Vez por outra a escuto por aí, sem medo de ser feliz, pronunciada em lábios que suplicam alguma complacência, algum cuidado, carinho, algum mimo imerecido. Situações mais diversas. O estudante não foi bem na prova, falhou na apresentação daquele jogral mal ensaiado, lido em picotes de folhas de caderno, ao que chamam Seminário: Professor, mas o senhor que é psicólogo... Use de psicologia com a gente. Ou ainda quando um pecado mal explicado é perdoado, a malfeitora em saia justa com a própria vaidade confessa: Ah, ele usou de psicologia comigo, um delicado. Ou se alguém se esquiva à provocação alheia, inferno certo, sem peitar ponta de faca, a platéia aplaude: Soube usar de psicologia. Até mesmo minha mãe, vez por outra, quando se vê sem saídas com a razão, esmaga-me à culpa contra a parede: Use de psicologia com sua mãe! 


E o que poderia você, farto leitor, escutar nas entre-bocas dessas linhas da inteligência ordinária? Em pressa, talvez se pense algo tipo bom samaritano, oferecer a outra face sem pudores, à maneira do perdão e, porque não, da arrogância. Em alguma abordagem psi facilmente se desceria o pau para destroçar esse ídolo humanístico que seria a compreensão. Talvez por ser sonho impossível a tal empatia, o altruísmo. Mas desejável, e tão bem quisto. 


Queria dizer, e digo, que há entre nós um sadismo leniente que se compraz com as catábases do sofrimento alheio. Nada contra, muito pelo contrário. Ao sofrimento, ergamos taças de vinho e liguemos o gramofone em Piazzola. Mas ao miudinho nosso de cada dia, perdoar  sem esperar troco ou agradecimento, pode ser curativo. Perdão, só a deus. Mas querer que o sujeito organize o seu mundo na fila do caixa, quem pode? Se o desgraçado acorre ao ombro amigo (coisa que o psicólogo é, sem nunca ter sido) mendiga algum alívio. Já se tocou do miserê cometido. Espera a encarnação bendita do velho sábio, sua indiferença altruísta, em que o sujeito se vê só consigo. Quando se ouve "usar de psicologia" talvez se  pretenda dizer alguma virtude cultivada, ao modo dos gregos, bantos ou indígenas; esmero em temperança, batuque ou arco.

Fato é: se a pessoa pede o penico da compaixão, quem sou eu em recusar? E se é para usar de psicologia, segue o conselho de um amigo: Jogue as muletas fora e repita comigo: sou meu pior inimigo


                                            

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