Há quem não perca mania de normalidade.
Depois da aula me
acompanha a estudante. Olhos brilhando, confessa – creiam: os psicopatas a deixam curiosa. Curiosa para entender a mente do cujo. Essa possibilidade de ser um qualquer, o vizinho, o colega,
esse parentesco com a normalidade. E a inteligência acima dos mortais. Estava em puro frisson.
Destrinchando a trama, relembrou o caso da moça
bem criada que planejou o assassinato dos pais. Lembrei de “Belinha”, no conto do Rubem Fonseca, gosto de ler em sala, para turmas do Direito. Tenho vontade de localizar o irmão dela
no feicibuque e dizer que ele corre perigo de morte.
Esmiuça a
tese, quer que opine. Tento disfarçar o incômodo, não dar
trela. Isso é conversa? Sem combinar? Meio da manhã, pleno
azul de dezembro, quase férias? Oquei, a aula tratou de enroscar no próprio rabo, falando sobre a cerca farpada que separa normal e patológico. Nada mais que
obrigação, remoer os mistérios
inconfessos da motivação. Afinal, ninguém sabe o lugar certo onde colocar o desejo, não é assim? E quem souber, atire a primeira pedra.
Ela quer apostar: confirmando a tese que o irmão será vítima da desgraçada
moça, a troco dos pais, devo-lhe dez reais. Um punhado
de bigue bigue? Sorrio pra não chorar. Procuro atalho para a
sala dos professores, um olhar, um colega, um tropeço que me resgate. Dou por
conta, estamos na porta do banheiro. Por suposto, entraria em
fuga, ela segura o meu braço e sussurra: Sempre fui hiperativa. Desde criança. Sou irrequieta, até hoje. Não consigo me concentrar
numa coisa por mais de quinze minutos. - Mas você vai bem nos estudos -
atestei. É, também trabalho panfletando pra uma pizzaria
que abriu agora. Minha mãe diz pra eu não tomar remédio, praticar
esporte, colocar minha energia pra fora. Mas eu sei que tenho TDAH.
Já li a respeito na internet. Consegui receita. Abre
a bolsa e saca caixas de Ritalina, duas. Minha mãe não
quer admitir. Diz pra eu tirar isso da cabeça e ocupar a mente.
Coitada. O que o senhor acha, quis saber, como
psicólogo? Era para mim, a deixa. Escorrego pro banheiro, dando o parecer sobre o caso:
Sua mãe está certa, sua mãe está certa.
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