Um aluno de psicologia geral e jurídica, estudante de Direito, a mim escreveu:
Professor,
Eu iniciei um estudo sobre o espiritismo e venho tentado entender que tipo de experiência é essa que as pessoas afirmam ter tido, onde elas tem a sensação (ou experienciam de fato) o contato com entidades espirituais, que inclusive podem assumir o corpo dessa pessoa e falar através dela.
Gostaria de saber, se não lhe for inconveniente, qual sua opinião sobre o tema, e se o senhor teria alguma leitura para me recomentar sobre o assunto.
Também gostaria de saber qual a opnião do senhor sobre a tese de que o fenômeno da possesão/incorporação é na verdade fruto do não entendimento do transtorno dissociativo de personalidade http://institutopadrequevedo.com.br/?portfolio=dissociacao-da-personalidade .
Obrigado pela atenção,
Respondi:
Meu caro ..., salve salve!
Interessantíssima questão, assunto sobre o qual tenho todo interesse. Pois toca de cheio uma (outra) discussão de fundo, fundamental à psicologia, sobre a ordem civilizatória ocidental e as recalcitrantes cosmologias que não se deixaram abater, por completo - onde as “religiões” de possessão e transe seriam exemplos. Em se tratando de Brasis, ora pois, aqui jaz toda uma controversa peleja quanto às cosmovisões (para usar um termo agastado) que orientam os diversos modos culturais que nos operam. Basta dizer que o sujeito (psicológico) moderno seria uma invenção (epistemológica) pari passu com a fabricação de costumes, modas e modos (mais "modernos" e "civilizados"?). As próprias guerras (que de santas não tinham nada) expressariam esse embate político-cultural entre perspectivas espirituais e epistemológicas: tanto mais racionalizada for a fé, maior será sua inserção e legitimidade (institucional) no mundo moderno.
Temos que as “religiões” de possessão problematizariam justo a ordem racional (identificada com o sujeito psicológico são, mentalmente saudável), possibilitando outras formas de contato com o sagrado que não (apenas) através do entendimento, da racionalização do mundo (em desencanto). Daí que as "religiões de possessão" estariam para as práticas e saberes de tradição oral, assim como as religiões cristãs para a moderna ciência - em termos de legitimidade e prestígio sociais.
Procuro fazer-pensar uma psicologia entre a magia e a religião, ou melhor, entre a ciência e a arte, como forma de escapar da hegemonia do cânone epistemológico do ocidente. Daí meu interesse no assunto. No caso do Brasil, insisto, tratar-se-ia de pôr em crise inclusive as formas de leitura pelas quais explicamos fenômenos extra-ordinários, ou extra-racionais que, a despeito de qualquer explicação ou tentativa de recalque por certa ciência psi, acontecem. Nesse sentido, quero dizer que compreendo, e discordo, da explicação do fenômeno de possessão como "transtorno dissociativo de personalidade”. Concordo pois isto bem pode ocorrer. Discordo porque seria reduzir uma cosmologia à outra, um modo de interpretar a relação com o sagrado a outro, se é que me entendes.
Sugiro, para compreender o kardecismo de um ponto de vista exterior a ele próprio, o que é sempre prudente o livro de um sociólogo estudioso das religiões, um professor da USP muito rigoroso, Reginal Prandi; sugiro a leitura de seu livro “Os mortos e os vivos: uma introdução ao espiritismo”. Nessa mesma pegada, há um outro, tratando de Umbanda, mas que elucidaria muito o lugar dessas manifestações religiosas na formação cultural brasileira, e, portanto, poderia esclarecer muito de nosso estranhamento para com as "religiões de possessão": o livro é “A morte branca do feiticeiro negro: umbanda e sociedade brasileira”, do professor Renato Ortiz, outro cara muito sério (basta dizer que este livro foi sua tese de doutorado sob a orientação de nada mais nada menos do que o emérito professor francês, um dos fundadores da USP, Roger Bastide - profundo conhecedero do candomblé…).
Já para uma abordagem da relação entre os fenômenos de possessão e a medicina, ou a psiquiatria, psicanálise, psicologia, há dois textos clássicos do antropólogo Claude Lévi-Strauss, publicados no livro Antropologia Estrutural. São eles: "O feiticeiro e sua magia", e "A eficácia simbólica". Há também um texto inteligente, numa coletânea de textos organizadas por Gilberto Velho, professor antropólogo renomado do Museu Nacional (UFRJ), já morto. O texto se chama “O psiquiatra e a pomba-gira”.
Tenho todos esses livros e podemos conversar mais quando o semestre retornar. Há também um artigo meu em andamento sobre o assunto que posso te passar depois.
Diga-me se recebeu este e-mail.
Forte abraço.